O Bom, O Mau e O Vilão

O Bom, O Mau e O Vilão

Sentia-me como um miúdo com a cara espalmada na montra de uma loja de doces, repleta de frascos e frascos cheios de guloseimas coloridas. Queria “comer” tudo! Depois de lá entrar, vejo que as prateleiras mais baixas estavam quase vazias. Procurei por moedas nos bolsos: um deles estava roto há mais de um ano… e o outro, já com remendos, para lá caminhava.

Nem com a ajuda de um “banco” conseguiria chegar às prateleiras mais altas, as dos frascos mais apetecíveis.

Assim estava eu em meados de Junho de 2016, na hora de comprar os bilhetes para assistir às modalidades olímpicas, através da internet de uma esplanada em frente ao mar. Estava a ser virtualmente acotovelado por milhares de pessoas, que tal como eu se empoleiravam no balcão, clamando para ser atendido. À medida que o tempo passava, mais as prateleiras esvaziavam. Tinha de me decidir rápido. Defini uma estratégia que me pareceu infalível:

– não gastar mais moedas do que as disponíveis no bolso remendado;

– não olhar para as guloseimas que sabia que não poderia comer;

– escolher os doces mais nutritivos, ou seja, os desportos olímpicos de que mais gostava e que sempre ambicionei ver ao vivo, no maior número possível de recintos e locais diferentes do Rio de Janeiro. Se possível, com portugueses a competir. Se possível, portugueses candidatos às medalhas.

Algumas marés depois cheguei a um consenso. Não foi nada fácil. Para além de ter de lidar com a frustração de não poder ir ver muitos desportos (pelos mais variados motivos*), não tinha forma de saber como se comportariam os nossos atletas nas diferentes fases eliminatórias das suas modalidades. E meter todos os meus desejos no único bolso com moedas revelou-se uma tarefa impossível de realizar: muitos caíram pelo caminho.

* … e não foi só por causa de incompatibilidades de horário com os meus compromissos de voluntário.

Por exemplo, queria ter ido ver o Phelps na Natação e os E.U.A. no Basquetebol, mas já não havia bilhetes disponíveis: para além da pequena fortuna que custavam, o facto de ter recebido a derradeira Escala de Atuação como voluntário já algo tarde, teve como consequência não chegar a tempo de os conseguir comprar. No Esgrima e no Ténis também já estava tudo quase tomado, e o que sobrava era caríssimo.

Algumas modalidades, como por exemplo o Hipismo, a Canoagem, o Remo, o Voleibol, o Andebol, o Tiro, o Arco com Flecha, o Halterofilismo, o Badminton, a Natação Sincronizada e o Hóquei em Campo, tive de as rejeitar em detrimento de outras. Quanto ao Futebol Olímpico, além de estar espalhado por outras cidades para além do Rio de Janeiro, achei que era uma tolice gastar aí as parcas moedas que tinha.

Outras modalidades como a Vela, o Triatlo, as Maratonas, o Ciclismo de Estrada e a Marcha, pensei que as poderia ver “à pala”, dado que se iriam realizar em extensas áreas ao ar livre e em percursos pelas ruas da cidade.

Mas fiquei contente com os que permaneceram lá dentro: assisti a 10 modalidades diferentes e estive em todas as áreas desportivas do Rio2016. Para além do Ciclismo de Pista (obviamente), fui ver Ginástica Artística, Judo, Voleibol de praia, Atletismo, Ténis de Mesa, Saltos Ornamentais para a Água, e o Pentatlo Moderno. E por ser voluntário, ainda tive a sorte de me oferecerem bilhetes para assistir ao Boxe e à Luta Greco-Romana.

Foi uma barrigada.

IngressosRio2016_Montagem

Ter estado nas mais variadas áreas desportivas do Rio2016 foi a mais elucidativa das viagens etnográficas. A forma como o Brasil se preparou para a empreitada das Olimpíadas e o resultado final dos recintos desportivos são a mais clara afirmação do que afinal é o Brasil. E que não hajam dúvidas de que nós, os portugueses, temos muito a ver com isso. Se não, vejamos: todos os recintos ficaram concluídos a tempo “por uma unha negra”, mas claro está, por força não só da extrapolação dos orçamentos iniciais e do esforço (sobre)humano, como essencialmente à custa do bom, velho, e português… desenrasque.

Não me refiro à organização do evento em termos desportivos e ao nível das estratégias de segurança, que tal como já salientei foi exemplar… apesar de todas as contrariedades e azares, verdadeiros ou falsos.

Do que falo agora é da estética, do design, das soluções arquitetónicas e urbanas dos  recintos desportivos e respetivas áreas onde estavam inseridos. Vendo pelas imagens televisivas, eram de uma plasticidade apelativa e muito colorida… mas de perto, muitas das soluções encontradas mais pareciam um caos arquitetónico de estacas de metal, lonas e tapumes.

A mais sintomática expressão desse caos era a enormíssima Arena do Voleibol de Praia, “montada” em plena praia de Copacabana. Quando vi aquele “monstro” por fora, não quis acreditar. Estranhamente ou não, adorei aquilo.

Mas apesar dessa minha atração pelo caos, tenho de admitir que em várias ocasiões me impressionei com a singeleza das estruturas e dos materiais.

Sendo certo que, para responderem às necessidades das comunidades de forma mais descentralizada, alguns edifícios olímpicos foram projetados para serem transferidos para outros locais no final das Olímpiadas, e que por esse motivo teriam de ter certas características que contemplassem essas “mudanças de local”, não deixa de ser um facto que algumas das soluções encontradas eram bastante sui generis.

Mas o mais incrível é que, no seu todo, tudo funcionou bem “telegenicamente”! Lembro-me de ver pela televisão imagens dos locais por onde havia estado minutos antes, e ficar pasmado com a sua beleza. Claro que a maravilhosa paisagem natural do Rio de Janeiro ajuda muito ao efeito mágico de cosmética, mas mesmo assim tive de assumir que não percebo tanto do assunto como pensava. “Uma coisa é a realidade, sr. Joaquim, outra é a realidade através dos media…” – passo a vida a lembrar-me e a esquecer-me disso.

Onde não dá para ter sucesso através do “desenrasque” é numa prova olímpica. Tirando da equação os casos de doping, e assumindo uma intencional ingenuidade acerca do poder que certas federações possam ter em relação às demais, julgo que não há injeções súbitas de dinheiro que valham a quem não passou anos a treinar-se para as medalhas olímpicas. Ou se está preparado ou não. E essa preparação pode durar uma vida inteira. Por vezes nem isso é suficiente.

A Helena Riefenstahl (ou “Leni” Riefenstahl, para os amigos) foi a primeira realizadora a filmar os Jogos Olímpicos tal como os conhecemos hoje: como se de um filme épico se tratasse.

Através do seu “Olympia”, filme que documentou os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim (denominados de “Olimpíadas de Hitler”), influenciou esteticamente e tecnicamente a maneira como as Olimpíadas são filmadas, a forma como a glória e a decepção dos atletas nos é transmitida pelos media. Hoje em dia tais inovações são a norma, mas na altura a adoção de planos muito aproximados, técnicas de edição e diferentes ângulos de visão, marcaram de forma surpreendente o início da verdadeira globalização do lema olímpico: “Citius, Altius, Fortius” (mais rápido, mais alto, mais forte).

E eternizaram Jesse Owens.

Apesar de dezenas de canais televisivos no Brasil terem transmitido diariamente todos os eventos olímpicos (só a SporTv local tinha 16 canais dedicados às Olimpíadas…), estes foram os Jogos Olímpicos que menos tempo passei a vê-los pela televisão. Decerto não preciso explicar os motivos.

Mas confesso que senti falta das vozes dos narradores televisivos portugueses. Não que os narradores brasileiros não tivessem sido igualmente emotivos e carismáticos (bem pelo contrário… aquilo é só energia!), mas existem vozes que me acompanharam em várias Olimpíadas. Entre vários, destaco com saudades o jornalista Jorge Lopes, e com admiração, o seu atual sucessor, Luis Lopes. Não eram da mesma família, mas devem ter partilhado o mesmo cordão umbilical da paixão pelo desporto e da excelência na profissão. Tal como o odor da relva acabada de cortar sempre me fará sentir dentro de uma explosão de verdes sentimentos, as suas narrações do Atletismo hão de sempre fazer-me sentir o bafo dos atletas no meio da pista de tartan.

Assim aconteceu com o Carlos Lopes em Los Angeles 1984, a Rosa Mota em Seul 1988, a Fernanda Ribeiro em Atlanta 1996 e o Nélson Évora em Pequim 2008*. Madrugadas da glória olímpica portuguesa.

* Só mencionei as nossas quatro medalhas de ouro… mas os restantes 20 medalhados a prata e bronze merecem todo o meu respeito.

E especialmente todos os outros “Fernandos Mamedes” (portugueses participantes em TODAS as edições dos Jogos Olímpicos da Era Moderna), que recordistas mundiais ou não, tentaram mas não conseguiram.

Apesar de ter comprovado que o Brasil gosta de Portugal, a cobertura televisiva por lá não se focava em nós. Obviamente. É um facto que estas foram as Olimpíadas em que menos acompanhei os atletas portugueses: é a prova de como por vezes podemos estar mais perto do que nunca das pessoas, e ainda assim estar mais longe do que pensávamos. Claro que ia acompanhando a participação lusa por outros meios de comunicação, mas o espaço efetivo que a televisão ainda ocupa nas nossas vidas é insofismável. Dizia a canção em 1979: “Video killed the radio star”. Vemos hoje que tal não aconteceu. Nem com a rádio, nem com a televisão. Eventualmente, a única coisa que a parafernália de meios de comunicação hoje disponíveis quase “matou” foi a nossa capacidade de concentração, cujos sinais vitais são tantas vezes mantidos à custa da respiração boca-a-boca do sinal da rede wireless.

Bom, já chega de deviações.

Não vou falar das miúdas “gostosas” que iam e vinham entre os combates de Boxe, anunciando os rounds. Não vou falar da invejável graciosidade dos atletas dos Saltos Ornamentais para a Água. Não vou falar de como uma luta Greco-Romana entre atletas com mais de 100kg pode ter o seu quê de Belo. Não vou falar da sensualidade felina das jogadoras do Voleibol de Praia, mesmo que vestidas dos pés à cabeça. Não vou falar da velocidade dos movimentos no Ténis de Mesa, nem do som das bolas a pipocar na minha cabeça desde que o jogava na mesa da sala-de-estar lá de casa, com 6 anos de idade. Não vou falar de como consegui aparecer na televisão, mesmo atrás do atleta que ganhou a medalha de ouro em Ginástica Artística, na final da Competição Geral Individual Masculina… pois disso falarei noutra altura. Não vou falar dos inusitados concursos de “Miss T-Shirt Molhada” do Pentatlo Moderno, pois já o fiz anteriormente.

Vou falar é de western spaghetti.

western spaghetti é sub-género cinematográfico italiano que reinou durante os finais dos anos 60 e os inícios dos anos 70, ocupando o lugar deixado pelos carismáticos westerns americanos (já em declínio, após várias décadas de fulgor). O conceito de “bom” e “mau”, de “herói” e “anti-herói” confundiam-se, mostrando que em cada um de nós existe uma pluralidade de personalidades. E que a linha que as divide é muito ténue… ou até nem existe.

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“O Bom, o Mau e o Vilão” é um dos filmes mais antológicos do género  (“Il Buono, Il Brutto, Il Cativo” é o seu título original), reconhecido ao longe pelo assobio-Morricone e imortalizado pela icónica e iconográfica cena final:

– o confronto dos três protagonistas (Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef), no meio de um cemitério em pleno deserto, debaixo do escaldante sol do eterno meio-dia… uma competição que se dá através de longos close-ups de expressões de tensão, num triângulo escaleno sem diálogos.

Sentimo-nos parte da narrativa, viajando entre os olhares lancinantes, cheios de expectativas e sonhos. Tudo pode acontecer a qualquer momento.

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Os Jogos Olímpicos são um western spaghetti que se repete de 4 em 4 anos. Uns perdem, poucos ganham. Ou se está preparado ou não.

Só que desta vez, eu assisti a tudo em pleno local das filmagens.

 

O Bom – “Citius” (mais rápido)

“O gajo é muito bom, pá! Fisicamente e mentalmente!… É Minhoto, caramba!… Vai ser hoje!!!…” – dizia para mim mesmo, com uma das havaianas quase a sair-me do pé, como que a querer chegar mais depressa do que a outra à Lagoa Rodrigo de Freitas.

Era o dia da final da canoagem em K1 1000 metros, e o Fernando Pimenta era a minha última grande esperança. A única coisa que queria era ouvir “A Portuguesa” nos Jogos Olímpicos. Nem que fosse uma só vez.

Respirava-se “Olímpiadas” em todo o lado: nas ruas, os prédios serviam de suporte a competições improváveis; no metro, as carruagens estavam cobertas por publicidades alusivas ao evento, que permitiam que se brincasse no seu interior aos desportos olímpicos. Brincadeiras que já havia começado nos acessos aos torniquetes de entrada, nos corredores e nas escadas rolantes, com pistas de tartan e piscinas olímpicas desenhadas a vinílico no chão, fazendo qualquer um entrar no espírito olímpico. Brincadeiras que nos recebiam com um humor de braços estendidos.

Já no Leblon, aterrei na novíssima estação de metro “Jardim de Alah”, anunciada pela voz gravada de um dos atletas olímpicos brasileiros. Nos múpis das plataformas de espera, bem como por toda a cidade, brincava-se aos jogos de palavras: através de uma parceria com o Google Translate, ensinava-se aos viajantes o que significavam algumas expressões comuns da gíria carioca, traduzindo-as em diversos idiomas.

Saí da estação em direção ao Estádio de Remo da Lagoa, fazendo slaloms por entre semáforos, carros e pessoas. Faltavam quinze minutos para começar.

Céu enorme, calor de ananases. Não tinha bilhete, mas tinha a confiança de que conseguiria ver a corrida numa das margens. Algumas modalidades ao ar livre permitiam que um qualquer Zé Carioca pudesse assistir às competições sem pagar um tusto… tornando-as mais aliciantes. De forma elícita, mas não ilícita.

Quando cheguei à Lagoa, dou de caras com uma rede a toda a volta… e nela empoleiradas, largas dezenas de pessoas.

O calor era tanto que as sombras das árvores eram cobiçadas como se fossem as próprias bancadas do recinto. Percorri o perímetro adjacente ao recinto (não da Lagoa toda, pois de tão grande precisaria de um bom par de horas para o fazer) à procura do sítio ideal. Acabei por regressar ao local inicial, pois era afinal o melhor de todos segundo as circunstâncias: estava mesmo junto à meta, de frente para os caiaques que a haveriam de atravessar. Mas com muito ruído visual à frente.

Apesar de tão perto da meta, não conseguia ver nada ou quase nada. Ouço o speaker a anunciar os participantes: não dava tempo de mudar novamente de sítio, indo para o lado diametralmente oposto da Lagoa, de onde se calhar até conseguiria ver melhor, mas de muito mais longe.

Quando resolvo empoleirar-me na rede, ouviu-se um sinal sonoro: tinha começado. “Vamos Fernandinho, vamos!… Tu és bom*, pá…!”. Naquele momento só me restava aguardar, e esperar que o som do hino do vencedor me desse uma alegria. Afinal era para isso que ali estava!

* O Fernando Pimenta ganhou uma medalha de prata em Londres2012 na dupla com o Emanuel Silva, em K2 1000. Conseguiu o bronze no Mundial de Milão, bem como a medalha de ouro no recente Europeu de Moscovo. E para além disso, é um gajo fixe. Boa pessoa.

A partir daí não ouvi mais nada. Quer dizer, ouvi: o barulho da multidão nas bancadas, o motor dos carros atrás de mim, uma miúda bem giraça de calções curtos a falar da nova cor das unhas, um ou dois pássaros a falar da vida, e um hino de que já não me recordo… tudo, menos o que queria: “A Portuguesa”.

Uma coisa era certa, o Fernando Pimenta não tinha ganho… não era nenhum dos atletas que via a festejar no meio da folhagem e demais texturas. “Como foi possível? O gajo é bom, pá!… F***-**…!” – não consigo descrever em palavras a desolação que senti naquele momento.

Nem sequer o consegui ver. O que lhe teria acontecido?

Muitas horas mais tarde, já quase no virar dos dias, vejo o resumo na televisão: o Fernando Pimenta começou bem rápido… tanto que à entrada no último terço da pista, ia largos metros à frente de toda a concorrência…

… mas acabou em 5º lugar. Nos últimos 400 metros, por infortúnios alheios ao seu esforço, a sua canoa apanhou “lixo” que o fez perder velocidade.

“Foram algas, senhor… foram algas…”. Ó sorte malvada!

 

O Mau  “Altius” (mais alto)

Concluído que estava o meu contributo como voluntário nas Olimpíadas, dediquei-me quase exclusivamente à minha paixão como espectador olímpico. E claro está, não poderia ter deixado de ir ao Estádio Olímpico Nilton Santos (vulgarmente conhecido como “Engenhão”), para assistir ao desporto-rei das Olimpíadas: o Atletismo, com todas as suas múltiplas modalidades.

Curiosamente, ao contrário do que imaginava, não foi o frasco de doces mais caro que trouxe da loja (o mesmo já não posso dizer em relação à Ginástica Artística e ao Judo… mas tinha de ser: valeram cada cêntimo!).

Foi uma sessão recheada de várias modalidades, onde por momentos até pensei que iria ver o Bolt a correr nas “Estafetas 4 x 100 metros”… mas depois caí em mim e percebi porque motivo o bilhete para aquela sessão não tinha sido muito caro: era a fase preliminar dessa modalidade, e o Bolt só iria correr na final, à noite.

Seja como fôr, foi uma tarde e tanto, com várias modalidades na fase preliminar e até algumas na fase final, com atribuições de medalhas e tudo. O Estádio Olímpico estava meio cheio, mas na última modalidade da sessão – o Salto com Vara do Decatlo Masculino – ficou bem mais vazio*. Por um lado até foi bom, pois o meu lugar inicial era no lado oposto do estádio, e dessa forma pude esgueirar-me mesmo para a beira do local onde os atletas realizavam os saltos com vara.

* Comparando com as expectativas iniciais, foi notória a fraca afluência de público nos recintos do Rio2016 em geral. É certo que a lotação esgotou nas provas mais desejadas, com os bilhetes a desaparecerem rapidamente nas sessões em que estavam as maiores estrelas olímpicas, bem como nas sessões com atletas brasileiros a competir pelas medalhas… mas na maior parte dos eventos desportivos, percebia-se que faltava gente nas bancadas.

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Posso testemunhar que não foi por falta de interesse: como já referi, apesar dos rumores do descontentamento de metade da população brasileira quanto à realização de umas Olimpíadas no seu país, o Rio de Janeiro estava em êxtase com os Jogos Olímpicos. Sentia-se as ruas da cidade a pulsar de vida. Portanto, só posso concluir aquilo que eu próprio pensei na altura em que comprei os meus bilhetes: estava tudo demasiado ‘salgado’. Que é como quem diz, eram muito caros.

Se a organização do Rio2016 tivesse apostado numa estratégia mais ‘low-cost’, mais condizente com a situação económica atual (não só do Brasil, mas do mundo inteiro), os recintos iriam estar repletos, as pessoas mais felizes, e a venda de bilhetes seria muito mais lucrativa.

Feliz da vida, sentado num lugar soberbo mesmo à beira dos treinadores, ouvindo os seus conselhos e advertências quando os atletas se abeiravam das bancadas, olho para trás e vejo um grupo de uma dezena de franceses, algumas cadeiras à esquerda. Apoiavam ruidosamente o atleta francês Kévin Mayer, que se preparava para saltar 5,40 metros… marca que nunca havia conseguido na vida, e que lhe poderia dar o ânimo (e os pontos) que precisava para “roubar” a medalha de ouro ao nome mais alto do Decatlo contemporâneo: Ashton Eaton (medalha de ouro em Londres2012, e papa-títulos desde então).

Bandeiras tricolores ao vento, goelas afinadas, e uma avidez fora do normal… quase a roçar a histeria: “Allez, allez, Kévin…! Allez France!”. De forma limpa, o atleta francês conseguiu passar a barra, caindo esfuziante no fofo colchão feito de cânticos da sua claque. Ficou em 1º lugar na prova, e ameaçou a liderança de Ashton Eaton no Decatlo.

Esta poderia ser uma banal história de uns quaisquer Jogos Olímpicos… mas não no Rio2016. É que 3 dias antes tinha acontecido um “coup de théâtre” naquele mesmo local, no Salto com Vara (a modalidade, não a prova do Decatlo), originando uma polémica que durou dias e dias:

Thiago Braz da Silva, um miúdo brasileiro emergente no Salto com Vara, treinado pelo mítico Vitaly Petrov (treinou a Isinbayeva e o Bubka), passou várias marcas à 2ª tentativa (5,75m; 5,85m e 5,93m), deixando todos os adversários para trás… excepto o atleta super-mega-favorito, que as ultrapassou logo à primeira: o francês Renaud Lavillenie, recordista olímpico em Londres2012 (5,97m) e recordista mundial da modalidade indoor em 2014 (6,16m: ultrapassando o recorde de 6,15m do memorável Sergei Bubka, que subsistia desde 1993).

Nesse momento, só os dois estavam em competição.

Lavillenie saltou os 5,98m, sabendo que o Thiago nunca havia passado essa marca. Para surpresa geral, o Thiago resolve subir a barra diretamente para os 6,03m: não tinha nada a perder, e tudo a ganhar!

Passou à 2ª tentativa! Recorde olímpico! O público estava louco!

Após falhar por 2 vezes os 6,03m, Lavillenie pede para subir a barra para os 6,08m… uma marca que já havia superado antes dos Jogos Olímpicos, sendo atualmente o único atleta no mundo a fazê-lo. Era a sua derradeira tentativa. Estava pressionado como nunca havia imaginado ser possível, com os olhos do mundo inteiro postos em cima dos seus ombros… e os milhares de pessoas no estádio a entoar um ensurdecedor coro de vaias e assobios.

Falhou.

O miúdo venceria assim a medalha de ouro ao maior dos Golias, debaixo da arrepiante explosão de aplausos e aclamações.

E eis que se deu a polémica! Inconformado com a derrota, Lavillenie escreveu nas redes sociais o seguinte:

– “Vice-campeão olímpico nesta noite (de segunda-feira) com 5,98m, vencido pelo brasileiro por 6,03m. Dei tudo de mim e não tenho nenhum arrependimento. Uma prova inacreditável!! Só estou decepcionado com a total falta de respeito do público. Isso não é digno de um estádio olímpico. Mas estou contente com esta medalha.”

Já no momento em que o entrevistaram poucos minutos após a prova terminar, Lavillenie havia dito em direto para todas as televisões: “Em 1936, a multidão estava contra Jesse Owens. Não víamos isto desde então. Temos que lidar com isso…”. O Brasil inteiro caiu-lhe em cima. Nem a própria “Leni” Riefenstahl se lembraria de fazer tal comparação!

Considero que o comportamento do público brasileiro nas bancadas foi altamente reprovável. Incentivar os nossos atletas, mesmo que com prantos exagerados de alegria, é legítimo… mas vaiar os adversários, assobiando-os e causando ruído no sentido de os desconcentrar e de os rebaixar, é mesmo muito feio. Gosto muito do povo brasileiro, mas pude comprovar esse comportamento na maioria das provas a que assisti. Ficava lixado com aquilo. É tudo o que as Olimpíadas não devem ser.

Mas convenhamos que, ao referir e comparar-se com o sucedido em Berlim1936 na vitória de Jesse Owens sobre a alegada “supremacia ariana”, propagandeada e mais tarde imposta por Hitler,  Lavillenie perdeu muito mais do que a medalha de ouro como atleta: perdeu o respeito e a admiração pelo seu valor como homem. A única coisa que ganhou foi o título de “mau perdedor”, marcado a ferro quente na testa.

Mais tarde, Lavillenie haveria de se retratar, dizendo nas redes sociais que apesar de se ter sentido humilhado, sentia verdadeiro respeito pelo atleta brasileiro… e que estava com a “cabeça quente” quando fez os primeiros comentários. Uma atitude que por certo terá também sido despoletada pelo Sergei Bubka, que se reuniu com os dois após a entrega das medalhas. Bubka: um campeão com H grande.

Foi uma noite olímpica capaz do melhor e do pior, que serviu de lição a quem a quis aprender. “Liberté, Igualité, Fraternité” foi o lema da Revolução Francesa, mas poderia ser igualmente um lema olímpico. A liberdade acarreta responsabilidade e lealdade para com os adversários, os “Davids” também podem competir de igual para igual com os “Golias”; a fraternidade na derrota só está ao alcance dos verdadeiros campeões.

Entretanto, o Ashton Eaton acabou por vencer o Decatlo, mas teve no Kévin Mayer um grande oponente. O Bolt ganhou a sua 9ª medalha de ouro olímpica na final das “Estafetas 4 x 100 metros”. E eu vi o mais recente filme acerca do Jesse Owens: “Race”. É mauzinho. Prefiro o “Olympia”, claro.

 

O Vilão – “Fortius” (mais forte)

Derrotado pela evidência de que não poderia ver a Telma Monteiro a competir (coincidia com o dia em que cheguei ao Rio), e sendo ponto assente que não poderia deixar de ver Judo no Rio2016, optei por fazê-lo no dia em que entrava em ação o nosso judoca “mais forte”: o Jorge Fonseca.

Para quem não sabe, ou já não se lembra, se fosse um super-herói da Marvel, o Jorge Fonseca seria uma mistura entre o Hulk, o Coisa (do Quarteto Fantástico) e o Luke Cage. Ou seja, apesar de “só” ter 1,75 mt de altura e 23 anos de idade, o tipo é um rochedo que se agiganta no combate com muito estilo.

Entro na Arena Carioca 2 (as Arenas Cariocas 1, 2 e 3 eram um espanto, tanto ao longe como ao perto), dedicada inteiramente ao Judo e à Luta Greco-Romana, e sinto a energia do recinto a vibrar-me o corpo, como se estivesse dentro das colunas de som de um megafestival de música. Aquele era o dia da competição dos “meio-pesados”: homens até 100kg, mulheres até 78kg. Sem assomos de exageros, cada vez que um atleta era derrubado, o pavilhão inteiro tremia.

O ambiente no recinto era incrível: dois tapetes ‘tatami’ no meio, com os judocas a agarrarem-se como feras a disputar a liderança da matilha, rodeados de milhares de pessoas aos berros. Num dos tapetes, estava o Jorge “Hulkoisacage”, vestido de azul forte. Como o céu lá fora, e como eu por dentro.

Não sei porquê, mas parecia que estava dentro de um filme do James Bond… um que ainda não foi feito, em que o agente 007 seria um português da Damaia, a defrontar os vilões ao ritmo de uma banda sonora estilo kuduro“blaxploitation”.

Lembro-me de me sentar, olhar em volta para as bancadas quase-quase cheias a gritar “Jorge! Jorge! Jorge!”, ver uns segundos do combate, e pensar: “Tu queres ver que vai haver medalha hoje?!…”. Lembrei-me da Telma de bronze, e comecei a acreditar que o dia poderia acabar com um pôr-do-sol dourado.

Eu não fazia ideia de que no Judo o público fosse tão ruidoso e participativo*! Aquilo levanta a moral a qualquer um! Faz-nos acreditar que até nós próprios poderíamos ir lá para dentro e fazer ‘ippons’ a torto e a direito!

* O Judo é muito popular no Brasil (por lá diz-se ‘Judô’), sendo inclusivamente a modalidade que lhes deu mais medalhas olímpicas no somatório de todas as Olimpíadas.

Dias antes, a judoca brasileira Rafaela Silva (‘Rafa’, como lhe chamam), fez história ao conseguir a primeira medalha de ouro brasileira no Rio2016: durante dias a fio só se falava do seu feito, exponenciado pela circunstância de ter nascido na Cidade de Deus (uma das comunidades com maior historial de violência do Rio de Janeiro) e pelo episódio das acusações racistas pelas quais ela teve de passar por causa do seu insucesso em Londres2012.

Apesar desse facto ter sido espremido ao máximo pela imprensa, tirando-lhe em demasia o sumo (na minha opinião), não posso deixar de lhe fazer a devida vénia (em japonês, ‘Rei’)… e também saúdo o Judo, pois segundo o seu treinador foi graças a ele que ela aprendeu a “peitar” adversários somente no tapete, em vez do mundo inteiro nas ruas. Como uma Rainha.

Só por curiosidade: quem é que a ´Rafa’ derrotou no penúltimo combate, aquele que lhe deu o acesso à medalha de ouro? A nossa única medalhada nestas olimpíadas: a Telma Monteiro.

E no caso específico do Jorge “Hulkoisacage”, ‘ippons’ em 9 segundos. Foi assim que ele ganhou o 1º combate. E foi por isso que eu o perdi: quando lá entrei já tinha acabado! Sentados atrás de mim, um grupo de cariocas vestidos de verde e amarelo, bem mais conhecedores do Judô do que eu, comentavam entusiasmados como o Jorge havia derrotado o primeiro oponente: “… apesar de fortão, o cara é um pouco baixo… mas tem muita técnica…!”.

E eu, claro, fiquei cheio de orgulho! Dei por mim de pé, a berrar pelo Jorge como se fosse o “mestre de cerimónias” do sítio, a iniciar os coros de incentivo: “Jorge! Jorge! Jorge!”.

Nesse 2ºcombate, durante quase todo o tempo, o Jorge esteve a vencer por ‘yuko’ o checo Lukáš Krpálek, um judoca muito alto (1,97 mt, 100kg), que era pelos vistos um dos candidatos à medalha de ouro (campeão do mundo em 2014, bicampeão europeu em 2013 e 2014). O público estava todo a torcer pelo Jorge, não só pela afinidade por Portugal ou pela excelência do seu 1º combate, mas também porque o judoca checo adotou um estilo de combate mais cínico e aparentemente passivo. Parecendo estar já resignado à derrota, tentava resistir às fortes investidas do judoca português.

A 22 segundos do fim, o suposto adormecido “vilão” checo, aplicou um ‘waza-ari’ no Jorge e passou para a frente, ficando com uma vantagem mínima. O Jorge tentou até ao último segundo, até à última réstia das suas forças… mas acabou por perder o combate.

Deixou o ‘tatami’ banhado em lágrimas, com o adversário vencedor e o público inteiro a aplaudi-lo até que desaparecesse nas entranhas do recinto, acompanhado por jornalistas e câmaras de televisão. Ver aquele rochedo de barba rija a chorar emociona qualquer um.

Não aguentei e saltei do meu lugar!… Aproximei-me dele o mais que pude, gritando-lhe bem alto palavras com sotaque lusitano, para que ele se sentisse em casa. Passou a poucos metros de mim.

Dias depois, o judoca checo ganharia a medalha de ouro. Com o todo o mérito.

 

Os Jogos Olímpicos são um western spaghetti que se repete de 4 em 4 anos. É uma competição feroz, corpo e o espírito postos à prova em índices elevadíssimos, cujo diálogo termina no triângulo escaleno das medalhas. Quantos “campeões” não o são por milésimos de segundo? Quantas estrelas cadentes não se tornaram decadentes por milímetros? Quantos pesos-pesados não aguentaram uma miligrama a mais?

Podemos ser os melhores, os mais bem preparados, os maiores favoritos à vitória… e no entanto perder por milésimos, por milímetros, por miligramas. Tudo é uma questão de atitude. Mas muitas vezes, de sorte. Ou pelo menos, de não ter azar.

No final, só quem vence fica para a História. Mesmo que seja por uma “unha negra”. Assim dita a supremacia da maldita competição com os outros, que desde o primeiro cheiro de relva aparada nos é imposta na roda viva dos dias. Não passa de ruído visual, que nos impede de ver com a clareza de um olhar lancinante, sem subterfúgios ou desenrasques, aquele que é o nosso verdadeiro oponente: aquele que não é só “bom”, ou só “mau”, ou só “vilão”… mas tudo ao mesmo tempo. E isso pode durar uma vida inteira a conseguir. Por vezes, nem uma vida inteira é suficiente.

Como disse o pistoleiro Blondie (Clint Eastwood) no fim da tal cena final de “O Bom, o Mau e o Vilão”:

– “You see, in this world there’s two kinds of people, my friend: those with loaded guns and those who dig…”

Can you dig it?

 

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